GAL..lery apresenta Fake Extreme Art
Franzisca Siegrist, sculptural abstractions #10
terça, 26 de abril, 2022

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FRANZISCA SIEGRIST

Sculptural Abstractions

A performance de Franzisca Siegrist foi realizada na Noruega na galeria ROM for kunst og arkitektur, sem público. Franzisca Siegrist move-se na relação com as linhas retas da galeria, no plano fixo e frontal da imagem, e cria formas escultóricas com o seu corpo, abstraídas em relação a outros elementos e objetos. Close-ups e simetrias de imagem acentuam no filme as ilusões de óptica propostas pela artista com posturas corporais complexas e um guarda-roupa específico.

 

2022

16:43 min

Cores

É para nós uma grande honra apresentar a enorme artista Franzisca Siegrist no projeto Galeria Ana Lama. O seu trabalho tem um vasto impacto mediático. Desde já avisamos para a circunstância de, na sua obra, poder haver pontos de trajetória cega.

Os media checos andam à procura de uma mulher que entrou em casas de pessoas à noite e as observou enquanto dormiam, não se sabendo se esta intrusa teria ou não consentimento das mesmas para tal. Parece que a entremetida fez apostas com estas mesmas pessoas em bares noturnos: conseguiria saber mais do que elas próprias; saberia dos seus mais íntimos sonhos.

O caso despertou uma onda de nervosismo pelo país, e de busca e investigação para se saber da identidade da desconhecida, havendo mais perguntas do que certezas. Inúmeros foram os casos reportados depois de serem observadas gravações de câmaras de videovigilância.

«As imagens das câmaras de segurança domésticas deixam claro que a intrusa não se importa com a presença de pessoas», disse o porta-voz dos media de Praga, num comunicado difundido nesta quinta-feira. A mesma comunicação diz ainda: «Podemos dizer que ela procura literalmente essas casas.»

Até agora, foram registados sete destes casos pelos meios de comunicação, mas diz-se que podem ter ocorrido muitos mais.

Na mesma medida, não sabemos se a intrusa falava ou não com a pessoa enquanto esta dormia, mas custa-nos entender de que modo a observação de alguém que dorme, só por si, reporta para a questão de saber os seus sonhos. No nosso entender, estão aqui presentes várias questões que se podem misturar — abuso de confiança, visto que se entra em casa de alguém que mal se conhece; e, por outro lado, uma atitude que pode ser estética ou poética, no sentido em que se contempla pessoas com as quais não se tem intimidade e essa contemplação ocorre de forma serena, enquanto dormem. Durante o exame de algumas pinturas, podemos ter também constrangimentos deste tipo, ao observarmos retratos que transmitem uma intimidade excessiva.

No que concerne à maior parte dos casos, não estamos em condições de interpretar o sonho alheio, a menos que a pessoa esteja a comunicar-nos pensamentos inconscientes que têm por detrás um conteúdo. A aplicabilidade prática de um método de interpretação de sonhos fica, portanto, restringida. Como regra geral, cada pessoa assume a liberdade de construir o seu mundo onírico de acordo com as suas peculiaridades individuais, com isso o tornando ininteligível para outrem. Parece-nos, no entanto, que — num completo contraste com o que aqui já ficou dito — há um certo número de sonhos que já quase todos sonharam e que habitualmente se supõe que devem ter o mesmo significado.

«Num dos casos, a suspeita estava sentada ao lado da cama do cão da família, sem que o animal doméstico desse por isso.» Alguns proprietários também acharam estranha a convicção da apostadora, na conversa no bar, na véspera do dia da invasão, uma vez que aquela queria pagar adiantado, assegurando que ia perder a aposta de saber quais seriam os seus sonhos mais profundos.

Num outro depoimento, prestado com base nas filmagens, diz-se: «Para não ser incomodada, ela trancou-se no quarto, ou no andar inteiro, sentou-se como que em meditação em frente à cama da vítima da aposta e depois, passado algum tempo, saiu de casa.»

A apostadora que invadiu casas de Praga (não se sabendo se com consentimento ou não) tem entre 20 e 40 anos e gastou mais de cinco mil euros em apostas centradas na temática dos sonhos. Suspeita-se que a mulher seja a artista que apresentamos — Franzisca Siegrist.

A questão das apostas talvez seja um pouco um esquema pensado pela autora para validar a existência de um consentimento.

Franzisca Siegrist nasce na Suíça e cresce nas Canárias. Atualmente trabalha entre as Canárias e Oslo. Siegrist labora com objetos, instalações e performances, e busca no quotidiano inspiração para entender a sociedade contemporânea. É também organizadora do projeto PAO–Performance Art Oslo.

Siegrist trata a abstração visual sob a forma de performances que registam o encontro do corpo com o objeto, encontro que produz um imaginário novo, e cada um dos elementos já não reporta ao que era, antes se transforma. Diz que esta é uma maneira de pensar as imagens, de as inscrever num registo em que passam de coisas exteriores ao homem para se tornarem num processo de pensar, sendo a performance um processo de pensar.

A artista é da opinião de que, com o figurativo ou o literal, apenas se consegue uma única mensagem, mas que, se tirarmos o meramente figurativo no processo da composição das imagens, ficamos com uma essência e estimulamos o nascimento de novas ideias.

Franzisca usa objetos do quotidiano no seu trabalho plástico, inspirada também no movimento Fluxos, em que os artistas trabalhavam com o que tinham à mão e transformavam o uso tradicional destes materiais (parte-se do princípio de que nem sempre há orçamentos para fazer trabalhos objetualistas e que, neste sentido, a performance, por força da sua simplicidade, abre múltiplas oportunidades).

Refere que, sem materiais e sem ferramentas, aprendeu a fazer obras de arte com nada. As suas ideias surgem daquilo que tem em casa, mas nos últimos tempos tem misturado este compromisso com a arte povera com objetos construídos e compostos.

As caixas de madeira que criou são disso exemplo, sendo objetos manufaturados que depois combina com plantas e vasos, brincando entre a ação frívola, dentro de uma casa, na criação de objetos estáticos de decoração e o refazer de um pensamento em ação sobre esses mesmos elementos estéticos.

Diz-nos que não é, de todo, uma performer decoradora de jardins.

Sabemos que a verdade é uma coisa radical em arte, que é inalcançável e que vivemos tempos estranhos e angustiantes. As posições são extremadas. Assim, uns dizem que a liberdade artística é apenas uma coisa falsa; outros, que a liberdade artística não passa de uma coisa verdadeira.

Tudo é mais complexo do que aparenta. Além do mais, e constantemente, mesmo em ciência, surgem novas teorias que destroem a estabilidade da verdade. Neste mundo de incertezas, podemos pensar que a dicotomia entre a verdade e a mentira é ridícula; que, no fundo, a ideia de que, se não existe a estabilidade da verdade e se o que existe é antes uma completa instabilidade da verdade e uma ficção extrema, isto seria também outro problema… Já que se tornaria impossível dar plena correspondência a esse mundo, uma vez que tal implicaria qualidades sobre-humanas, de forma que teríamos de superar o pânico da ausência, em nós, de uma direção moral.

Por outro lado, a radicalidade — porque também é uma radicalidade a questão de pensarmos que só existimos com dignidade na estabilidade da verdade (enquanto experiência humana), numa ética, ou seja, numa correspondência coletiva das condições dessa verdade com o meio comum e o interesse de todos. Neste caso, a liberdade teria de se dobrar — e estamos a falar de arte — e só se daria por intermédio de uma voz coletiva e de uma causa de interesse comum.

Talvez este ponto de vista também seja radical, já que podemos perguntar: como é possível que a voz de vários ou de todos conflitue com o inconsciente de uma das suas partes?

Fará sentido que este inconsciente conflitue com uma razão para o comum (algo dentro das ciências sociais), quando o mesmo inconsciente — que aparentemente está em oposição à razão — pode também ser um motor de uma nova justiça?

Concluindo: no plano das ideias, a verdade, em arte, é sempre uma radicalidade e um desconforto, porque quando fazemos escolhas de vida que têm que ver com arte, com ser artistas, com ser professores, com o trabalho em escolas de artes, com o ser espectador, somos estimulados diariamente no sentido de tomarmos posições extremadas, dizendo umas vezes que a liberdade artística é só uma coisa falsa e que está ao serviço de ferramentas das ciências sociais (por exemplo), e, noutras, que a liberdade artística é a única coisa verdadeira e a única forma de escrutinar a realidade.

Pensamos que foi esta consciência do lugar da arte como coisa instável, como coisa radical, que levou Franzisca Siegrist a ser falada pelos media da República Checa.

A questão de espreitar gente enquanto sonha parece ser condizente com a sua atitude de experimentar estes limites e funções da arte. «Será que a arte tem de estar só nas galerias, adormecida nas suas funções, ou pode e, por outro lado, deve entrar na casa das pessoas e imaginar, por exemplo, o que são os seus sonhos?», indaga Franzisca.

Franzisca conta, a propósito do processo «O Sonhado Coletivo» (relativamente ao qual ainda não foi confirmada como autora e, supostamente, observadora de pessoas que sonham dentro das suas próprias casas, com ou sem consentimento):

         «Eu não acho que foi um desenvolvimento consciente. Surgiu apenas da imaginação coletiva e dos gostos das pessoas envolvidas. Queríamos fazer algo diferente e interessante, porque todos os outros artistas plásticos estavam ali parados como um bando de idiotas, e na altura a ideia de performance tinha sido substituída por outras, absurdas, autoindulgentes e simplesmente estúpidas na sua sinceridade, autenticidade e na postura masculina sem humor. O punk tinha-se voltado para um tipo qualquer de ortodoxia, o que era nojento e alienante. Queríamos fazer o que gostávamos de fazer e promover as coisas de que gostávamos, cosmogonias estranhas, políticas de pessoas não conhecidas, filmes de segunda categoria, tratar do jardim, cultivar cogumelos, levar à rua os cães de vizinhas mais idosas; essas coisas.»

Devíamos estar antes a descrever a performance «Sculptural Asbtractions #10», realizada no contexto da Galeria Ana Lama, que aconteceu na Noruega, no espaço da galeria ROM for kunst og arkitektur, mas optámos por descrever o projeto «O Sonhado Coletivo» e a narrativa dos media da República Checa sobre a observadora de sonhos.

Falar da possibilidade de Franzisca Siegrist ser a espoleta deste caso mediático serve como exemplo da função utópica presente no seu trabalho.

 

Ana Lama

Tombuctu, 13/07/2022

 

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