GAL..lery apresenta Fake Extreme Art
Project Heroina, Masterpiece
domingo, 19 de dezembro, 2021

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Projeto heroina

Masterpiece

Masterpiece é uma  instalação/performance da autoria de Cartier e Kersti Vallikivi-Ramos, com a participação de Bernardo Rodrigues, «uma celebração irónica sobre o homem moderno e a civilização humana».

Realização: Márcio-André de Sousa Haz

 

2021
20 min
Cores

Projeto Heroína, um coletivo de artes visuais e performance, é composto por uma geometria variada de rostos, rostos que se compõem para cima ou para baixo, em escadinha, numa galeria de pessoas inesquecíveis. O projeto tem como membros iniciais, e que se mantêm em funções, Paul Ramos e Kersti Vallikivi. Em Lisboa, apresentam uma performance que tem como convidado especial Bernardo Rodrigues.
As suas performances demonstram uma grande atenção ao retrato psíquico, ao retrato humano, visam enfrentar a terapia negativa que é o desprezo entre humanos, dispõem o humano na performance como um objeto a despir, com um humor absurdo. Deixam ali instalados os corpos e as personalidades nervosas, sublimes, a latejar, como um projeto de terapia de grupo (mas agora sem objetivos que se vislumbrem imediatamente do ponto de vista da saúde pública).
Outra das questões formais que podemos ver nas suas performances são os jogos plásticos, como uma espécie de modalidade desportiva, mais uma vez absurda, entre os indivíduos. Aqui mantém-se latente uma beleza, uma beleza que refere a linguagem como se esta existisse em socalcos de conhecimento. Pequenos quadros de ações misturam-se neste dispositivo cénico. Ao modo Cut Up, como fazia William Burroughs na escrita, mas utilizando a disparidade da collage na visualidade e corporeidade, as suas imagens funcionam por uma sobreposição que atinge a consciência do espectador.
A não temática das suas performances é aparente, os seus membros demonstram uma apurada prática meditativa a-temática, método que investigaram ao longo de vinte anos e sobre o qual ministraram workshops, método assumido como técnica de pensamento. Incorpora respiração acelerada e euforia, uma espécie de gargalhada teórica, afirmando conclusões em física contemporânea e em filosofia. Na sua investigação artística e no saber que as suas performances apresentam, fazem-nos rever algumas verdades dadas como adquiridas.
O Coletivo Heroína está sediado em Manchester. Além de performers, são também curadores de espaços como o Working Man Gallery ou a Black Wall.
A Project Heroina foi uma banda punk até 2010, mas moldou-se de um formato musical e de concertos para uma postura crescentemente visual e silenciosa. Referenciam estes trabalhos como «silêncio punk» (a verdade é que desde 1978 muitos vêm reiterando a morte do punk). Sabemos que alguns grupos do movimento punk sofreram alterações e reestruturaram-se numa relativa incorporação no sistema da indústria cultural vigente. A Project Heroina soube manter-se à margem, nunca entrando no circuito comercial.
Sabemos que, em 1979, a ascensão ao poder de Thatcher marcou uma inversão e reestruturação no movimento punk, dando-lhe novos desenvolvimentos e contornos: o punk e as suas intenções tinham-se estendido a todo o mundo. O punk cada vez significava mais cabeleiras grotescas à moicano com quinze centímetros de altura, tatuagens faciais, bondages, botas de tropa, Doc Martens. A influência do situacionismo era também um suporte teórico, injetado na cultura popular, particularmente na música punk de meados dos anos 1970. O situacionismo foi usado como ponte para o punk, a teoria sobre o espetáculo de Guy Debord.
Com a (falsa) «morte do punk», deu-se a morte das subculturas clássicas — já não havia, assim, a rebelião dos jovens, contra esses vários aspetos da sua existência.
Teorias!?
Com a falsa morte do punk, a música tende a não se tornar um veículo poderoso para essa rebelião, porque não pode fornecer uma expressão para as suas preocupações.
Teorias?!
O ponto épico da banda Project Heroina acabou por nem acontecer. Foi cancelado. Teriam sido convidados para ser a banda que iria abrir o concerto de Lou Reed, Perfect Day, em Lisboa, no ano 2000, no Pavilhão Atlântico, concerto que não puderam dar por terem sido obrigados a comparecer nos exames nacionais do ensino secundário, de acesso ao ensino superior.
Os integrantes da banda tinham na altura apenas 12, 15, 16 e 13 anos.
A instalação/performance que apresentam no Panorâmico de Monsanto será, nas suas palavras, «uma celebração irónica sobre o homem moderno e a civilização humana».
Aparte.
Nos últimos tempos Paulo Ramos, iniciador do Coletivo Heroína, mudou-se para Manchester, mas nunca subiu ao sótão da sua casa, debaixo da escada que dá para uma porta aberta do mesmo, todos os dias, de manhã, executa aquelas que acha serem as dez principais gargalhadas, a saber, a gargalhada falsa, a gargalhada maligna, a gargalhada histérica, a gargalhada inadequada, a gargalhada de bebé, a gargalhada nervosa, a gargalhada silenciosa, a gargalhada provocante, a gargalhada de etiqueta e a gargalhada contagiante.
 
Ana Lama, Monte dos Caracóis, em Buenos Aires.