Galeria Ana Lama

GAL..lery apresenta Fake Extreme Art
Kamil Guenatri, Becoming the Way
Sexta-feira, 8 de outubro, 2021

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KAMIL GUENATRI

Becoming the Way

A intervenção de Kamil Guenatri no Mercado de Alvalade de Lisboa, suscitou uma pergunta nos espectadores: como pode Guenatri ser performer tendo claras dificuldades de locomoção no dia a dia? A edição do vídeo, por Sousa Haz, jogou com o desdobramento da imagem escultórica sugerida pelo corpo do artista estático num espaço público, e ao mesmo tempo pela ação repetitiva e lenta de transformação do seu próprio corpo.

 

2021
21:59 min
Cores

Ajudado por assistentes, Kamil Guenatri joga com esses limites do corpo entre a imobilidade e o movimento, o aprisionamento e a liberdade, percebendo-se a beleza pungente dessas qualidades contrastadas.
Qui légitime l’art contemporain?
Era o que ele tinha escrito na sua T-shirt branca, na primeira vez que o vi.
Usa o seu corpo, a sua condição frágil, como veículo para enfrentar preconceitos sociais face a uma physical disability; propõe com as suas ações poéticas suplantar a representação da dor e do sofrimento; propõe como dispositivo performativo instalativo, com a beleza diáfana com que dispõe aí do seu corpo, que se faça notar uma vontade pulsante de vida.
Kamil Guanatri é o performer mais corajoso que existe e o último samurai dos mares.
Qui légitime l’art contemporain?
O samurai Kamil detém o recorde de tempo contínuo em performance num palco marítimo. Esteve 45 dias num veleiro, numa ação duracional, num convés. Para a montagem do projeto artístico, foi ajudado pela tripulação do navio, experiente e apaixonada pela vida no mar. Nessa performance a bordo de um veleiro, depois dos 45 dias dedicados ao projeto, continuaria viagem dando a volta ao mundo.
A jornada foi muito dura. Ainda hoje, quase sete anos depois, não recuperou totalmente a massa muscular perdida nem a amplitude dos movimentos do tornozelo ou a sensibilidade da região lombar. Ainda sente dores quase diariamente, resultado desse processo.
A viagem começou em maio de 2013 no veleiro/cruzeiro de 53 pés, o Jeanneau. Velejou de Ramsgate (Reino Unido) a Portugal, parando em várias cidades ao longo da costa norte de França e de Espanha, regressando a Ramsgate.
Lembra-se de que uma dessas noites estava calma – que, quando passavam o estreito de Gibraltar, lhe foi possível ver plânctons bioluminescentes, azulados, ao redor do barco, mais alguns peixes solitários nadando ao seu redor. Que nessa noite parecia haver muito mais estrelas no céu (quando estamos no mar, parece sempre que existem mais estrelas).
Disse-nos que, estando afastados das luzes das cidades, e sentindo a importância das roupas térmicas, já que ficava muito frio no cockpit durante a noite quando em alto-mar, que nessa noite sentiu uma paz imensa. Era 24 de dezembro de 2014 e foi o último dia da performance a bordo.
– Qui légitime l’art contemporain, my body is manufacturing plant of poetry and actions, cette merde que je fais est une chose importante!?
O veleiro tinha estes dizeres escritos na vela, o que poderia parecer uma interrogação elitista por parte de quem da costa visse o barco, sendo que a intenção de Kamil não era essa, mas o seu absoluto contrário.
A meio da performance, a 24 de junho, o barco ficou à deriva porque o comandante adoeceu. A tripulação tinha de tomar um especial cuidado para subir de volta ao convés quando se revezava por turnos – já que o barco balançava violentamente. Kamil estava disposto de forma ventral no porão; começou a enjoar, teve que se conter e de se deitar no convés até que o barco, com o comandante recomposto, retomou a navegação. Felizmente, o enjoo passou.
Qui légitime l’art contemporain?
Art of living e formas não aparentes de meditação como legitimation strategies in art; falámos sobre isto em 2018, na última visita que nos fez em Portugal.
Isto da legitimação em arte é um grito fechado. Na verdade, há uma coisa que nos dias de hoje perdeu muita importância – a procura das subjetividades interiores. Estamos, antes e sobretudo, a pensar na nossa função enquanto seres vivos e em como essa função perdura; a questão das utilidades e o que representamos para os outros em sociedade – estas utilidades perduram, e isso dá autoestima.
O comprimento de onda, uma onda psíquica, é como uma função de calma e tranquilidade; a arte e os seus processos como que se cumprem, fechados ou abertos, e parece que hoje se apela menos aos estados de alma e à contemplação.
Seria adorável que toda a gente tivesse a mesma boa vontade de Timothy Morton quando escreveu um livro, o All Art is Ecological. Em determinada altura, no livro, Morton define ecologia como a capacidade de se viver de forma não violenta com seres não humanos.
Mas o que é isto da paz ou da atenção para com seres não humanos?
Para um artista, não é fácil manter certezas e todos os métodos ecológicos e todas as temáticas são transitórios – os temas e os conceitos, só por si, podem ser redutores. A arte, ao contrário da ciência, foge de ser contida na razão.
Temos dúvidas, e muitos objetos de arte caem num limbo ético justificado e injustificado na terapia, numa injustificação que se abre ante o tempo como experiência.
A maior parte das performances – talvez – fala numa reciclagem do tempo individualíssimo, quando se trata de experiências sinceras de arte.
Recicla-se o tempo com algumas ações artísticas, porque o performer propõe que parte da experiência se abra ao que vai acontecer como improviso, isso abre o tempo; e também o espectador comunga dessa adrenalina sem saber o que vai acontecer. O tempo, hoje, é comido como um alimento superprocessado, e a performance, quando se dá à improvisação, ajuda a encarar o stress da vida contemporânea.
O tempo, terapêutica que a arte nos abre, fechados que estamos – inconscientemente, numa organização de utilidades –, recicla-nos, e algumas vezes enquanto espectadores, faz reset em todo o sistema.
A visualidade ganha interesse (falando de artes e performance) quando as formas não humanizadas (o que pode ser toda a matéria à nossa volta, mesmo aquilo que anteriormente eram utensílios humanos), quando esta matéria fica desprogramada, deixa de ser vista de forma utilitária e a relação pré-concebida se desconstrói – e é então que aprendemos novas relações que podem ser poéticas.
Para que isto aconteça é preciso estar de mente aberta e quebrar com a normal hierarquia da relação com a matéria; as coisas, aqui, não estão ao serviço do homem, antes tendo qualidades próprias; as coisas estão ao mesmo nível dos humanos.
A performance é a contemplação visual em ação, o momento em que se quebra essa hierarquia e em que a mente se encontra com o momento do ato de conhecer. Este estado de concentração dá força às performances e é vivido em comunhão com os públicos – tudo isto pode ser também muito desinteressante, se não se estiver com disposição para um momento contemplativo.
Em Lisboa, teme-se recorrentemente o terramoto de 1755 (seguido de maremoto), teme-se que este se venha a repetir. Desde esse ano, Lisboa é conhecida como a cidade marítima aérea (os turistas já acham estranha a tradição lisboeta de deixar botes de borracha no cimo dos edifícios, para o caso de ser necessário usar este meio de transporte).
A performance que Kamil nos propôs, aqui em Lisboa, foi uma coisa séria, uma performance de longa duração, uma coisa para quatro horas. Apresentou-nos “Becoming The Way, uma experiência e uma ação reflexiva que se estendeu no tempo, propondo o seu corpo coisificado como interrogação; o corpo é mais um material entre outros materiais. Interage com objetos para assim criar um enunciado, uma proposta poética viva. A performance é composta por ações mínimas repetidas, com variações lentas”.

Alandroal, 27/09/2021
Ana Lama.

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