GAL..lery apresenta Fake Extreme Art
Margarida Pratras, A Origem do Fim do Mundo
quinta, 8 de setembro, 2022

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REGISTO EM VIDEO

BREVEMENTE 

Fotografia –   @Elisabete Magalhães 2019

Margarida Pratas

A Origem do Fim do Mundo

O segundo ciclo Fake Extreme Art conta com a performance de Margarida Pratas, que vai ser realizada num formato de making of. 
 

O registo em vídeo da performance é também um momento com público, um ensaio aberto de uma performance para a câmara. A ação será registada em vídeo na Estufa Fria de Lisboa, sem cortes durante a filmagem; com um público-figurante.

Convidamos-te a assistir a este processo – com entrada gratuita sujeita a reserva

* realizadora convidada: Elisabete Magalhães

No próximo evento da Galeria Ana Lama, apresentamos Margarida Pratas, escultora relevante da nova cena artística portuguesa. Sabemos que esta nova cena artística portuguesa aparece em rutura com a geração que aprecede no pós-crise económica de 2008 e revela uma relação muito própria dos artistas emergentes com as instituições e as convenções culturais.

Margarida Pratas, numa tradição assumidamente povera, algo ao estilo anos 80, em que supostamente o campo artístico se expande das galerias e museus para uma plasticidade já não normalizada, solta-se da criação de objetos de decoração, talvez pretensiosamente — mais precisamente a partir de 2015, com a arte portuguesa a tornar-se coscuvilheira —, e coscuvilha todos os cantos do mundo… e todas as dimensões sociais.

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Esta neoarte povera de 2015 não se refere à indigência dos meios, mas a uma transformação radical da encenação em arte, em que se revela uma atitude declaradamente provocadora e é abraçada uma redução essencial da experiência estética (entre artista e público, por exemplo), suprimindo-se a mediação do objeto, no caso das artes visuais, ou suprimindo-se o guarda-roupa (no caso do teatro experimental, a maquilhagem e a iluminação). São também utilizados de forma intensiva a expressão corporal dos actores ou o corpo nu. Ressaltam-se, por outro lado, no percurso de Margarida Pratas outras influências, como as de John Cage e Yves Klein.

O impacto de John Cage sobre Margarida Pratas pode ser visto de várias maneiras, todas elas indiretas, e está ligado ao interesse comum que têm pela filosofia oriental, nomeadamente, pelos jogos de azar e o I Ching. Margarida Pratas orienta-se deliberadamente para ideias ou projetos que possam ter um impacto imprevisível sobre ela e sobre o seu fazer artístico. Para que em cada projeto se ofereça uma oportunidade de crescimento. A crença de Yves Klein de que o produto final não era tão importante quanto o processo de fazer arte é algo que já foi reconhecido como uma influência significativa na carga conceptual de Margarida Pratas.

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Margarida Pratas cria espaços de performance «carregados» e por vezes estáticos, que podem ser comparados a lugares designados para o sagrado, sendo de considerar o papel que a energia desempenha na vida das pessoas como compreensão experiencial do espaço, do lugar e do tempo.

As suas performances, muitas das vezes, apresentam o seu corpo solitário entre objetos ou artefactos instalados — se pensarmos no barulhento mundo ocidental, exigente, saturado de imagens e de media, escolher ficar completamente sozinha, por si só, já é um manifesto. Na solidão e no silêncio, os mecanismos e as estruturas que agem para que nos divorciemos de nós mesmos não existem, assim podendo imperar o tédio e a autorreflexão, o que nos deixa expostos e vulneráveis. Nestas condições, o único recurso somos nós: uma perspetiva incómoda para quem não consegue imaginar lidar com tal ambiente livre de estímulos.

O desafio é, portanto, o de deixar as conceções do ego. O sentido de empoderamento obtido através do autocontrolo e da autorreflexão intrínsecos a essas práticas é uma parte do seu processo. A artista observa as práticas sufis como exemplo, nas quais indivíduos giram rapidamente sobre si durante longos períodos de tempo, como meio de entrar num estado de transe e também como um meio de se posicionarem num momento presente mais real.

Para esta performance na Estufa Fria, Margarida Pratas inspira-se, por outro lado, em Gustave Courbet, pintor francês e líder do movimento realista; mais objetivamente, no seu quadro A Origem do Mundo (L’origine du monde), que em tempos puritanos teve tudo para chocar. Representa o sexo e o ventre de uma mulher lascivamente deitada numa simples poltrona. O enquadramento foca a parte da anatomia feminina e o espectador nada mais vê do que o órgão sexual, as coxas e os seios do modelo.

O movimento artístico, a que se chamou Realismo, substituiu os temas grandiosos e heroicos do Romantismo por visões simples do quotidiano e o sentimentalismo pela observação imparcial e objetiva. Evitavam-se as pinceladas intensas e dramáticas dos românticos, preferindo-se os temas claros e precisos, de fácil compreensão, e, em particular, os temas sociais.

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Os pintores realistas — como Gustave Courbet — voltaram-se para a representação das cenas da vida quotidiana e para temáticas populares, muitas vezes impregnadas de ideias políticas. Dizia Courbet: «A pintura é uma arte essencialmente objetiva e consiste na representação das coisas reais, existentes.»

De entre as pinturas que se podem descobrir no Museu de Orsay, A Origem do Mundo será, por certo, uma das mais famosas e virulentas.

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Margarida Pratas irá realizar uma reconstituição da cena do quadro, a que chama A Origem do Fim do Mundo. É de notar que, por coincidência, ou talvez não, Margarida é descendente do pintor Gustave Courbet (1819–1877). A sua avó ainda conheceu Constance Quéniaux, antiga bailarina da Ópera de Paris — a mulher representada no quadro original L’Origine du Monde.

A artista diz-nos que contesta a afronta de encarar o próprio corpo da mulher como uma escultura e considera essa atitude como uma forma de lidar com as «ataraxias» construídas pelo pudor, tendo por vontade repensar as objetificações idílicas do feminino.

O corpo de Margarida Pratas é uma centrale nucléaire de l’eschatologie et de la provocation, e é por isso que a artista redefine e volta a tentar perceber de que modo a adoração de um tema, no caso, o corpo da mulher tornado imagem, ora castra, ora liberta a sua sexualidade e se rebate diante desse objeto de desejo.

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Enfim, na performance que vai realizar connosco, com reminiscências da obra de Courbet, Margarida Pratas é a mulher enquanto corpo escultórico, objeto de desejo que se cristaliza num lugar ermo, no qual aparece apenas para ser visto.

A ideia desta performance passa pela corrupção do olhar do observador, tornando-o furtivo, ainda que involuntariamente, e partir de um ambiente que facilmente se torna onírico, permeável a fantasias e mitos — tirar/pôr máscaras —, numa atmosfera ambiental verde, aparece como uma presença incómoda. Na Estufa Fria, imersa em natureza, Margarida Pratas vem propor uma aura que declare silêncios e imponha penitências.

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